terça-feira, 19 de maio de 2009

Parábola da felicidade

Após uma caminhada exaustiva pelo campo, os quatro amigos sentaram à beira do caminho, embaixo da sombra da velha maqueira.
Era ela a única árvore numa plantação de melancias.
Era como se representasse, com dignidade a espécie das árvores, num planeta onde alguns humanos não importam em destruí-las em nome de um progresso duvidoso.
Aquele era o local preferido dos rapazes - jacas e melancias à vontade ! Aquele dia era especial... terminaram o curso e, provavelmente, seria a última vez que caminhariam juntos.
Embora nem admitissem, estavam conscientes do momento e não perceberam o estranho brilho pairando sobre a copa da jaqueira.
Não fiquem tristes, nós nos veremos novamente...
Os amigos se entreolharam, espantados.
Quem disse isso ? perguntou Eduardo, intrigado.
A voz era suave e nem parecida com nenhum deles.
-- Ouvi! confirmou Pedro.
-- Parece que veio lá de cima.
-- Também escutei! disse Silas.
-- Estranho! comentou Antônio. Acho que pegamos sol demais pelo caminho.
-- Ei! exclamou Silas. Vocês estão notando uma luz estranha no alto da árvore ?
Todos olharam para cima.
-- É verdade. Vai ver é um disco voador!
Escutaram a voz novamente :
-- Não é brincadeira! Eu posso atender um pedido de cada um de vocês para que sejam felizes...
O susto foi grande. Uma árvore falante! Árvores não falam! Ou falam ?
O conhecimento científico, impõe-se de maneira preponderante, de tal forma que acabamos por crer apenas no que conseguimos pesar, medir, reduzir, ao mesmo tempo que passamos a recusar tudo o que não se enquadre nesses experimentos científicos.
-- Vo... você é um tipo de árvore da felicidade ? perguntou Antônio.
-- Não importa agora. Façam logo seus pedidos...
-- Quero ser o homem mais rico do mundo! falou Antônio, superando os instantes de incredulidade.
Ninguém consegue ser feliz sem dinheiro. Silas pediu :
-- Quero ser o homem mais amado do mundo, já que dinheiro não traz felicidade.
Eduardo falou :
-- Eu quero ser muito inteligente! E também jovem! Mocidade e inteligência são, sem dúvida, as maiores felicidades.
Pedro pediu :
-- Eu quero ser o homem mais famoso, com glória.
E todos riram.
Rapidamente a copa da jaqueira mudou de cor, soltou estranho zunido e, por fim, subiu velozmente para o céu, deixando um rastro luminoso e os quatro amigos boquiabertos.
O tempo passou...
Cada um seguiu seu caminho.
Conforme pediram, seus desejos foram realizados, embora não tivessem conseguido a tão ansiada felicidade...
Antônio tornou-se o homem mais rico, graças a uma estranha sorte no mundo dos negócios.
Acumulara fortuna, mas a riqueza só lhe trouxe problemas.
Nunca tinha certeza se as pessoas que conviviam ao seu redor estavam interessadas nele ou na sua fortuna, e por isso ia se tornando taciturno, entediado, egoísta, isolando-se de todos.
Só saía protegido por guarda-costas, por medo de seqüestros.
Silas, por sua vez, era muito amado.
Ainda que fizesse as piores maldades, seus fanáticos admiradores sorriam para ele e lhe adoravam. Mas sentia-se muito só.
Não fazia diferença como tratava as pessoas : o resultado era o mesmo.
Tinha muitas mulheres, mas não amava nenhuma.
O amor das pessoas, sem que fizesse nada para conquistá-lo, tornou-o cruel e perverso.
Sentia prazer em maltratar as pessoas. Eduardo permanecia jovem e inteligente.
Era requisitado para palestras pelo mundo todo. Governantes solicitavam sua sabedoria.
Mas era infeliz e solitário. Era alvo constante da inveja das pessoas.
Coisas simples como sair à rua ou ter amigos, era impossível agora.
Vivia recluso, por evitar os jornalistas e a milhares de convites para apresentações em público.
Antônio, Silas e Pedro viam a morte como libertadora de tanta infelicidade e frustração.
Para Eduardo, sempre jovem, pensava ele mesmo dar fim a sua vida infeliz. 1990... 1996... 2000... 2003... 2008...Embora nunca mais tivessem se encontrado depois daquele dia, os quatro mantinham o hábito de olhar o céu em noites estreladas, à procura de um estranho brilho esverdeado.
Um dia, os quatro largaram tudo e fugiram. Viram-se novamente no local da velha jaqueira.
-- Fomos enganados. Mas o que podemos fazer agora ? E choraram, abraçados um ao outro.
-- Foram vocês que escolheram assim!
-- A voz! Maldita! Maldita! Você nos enganou com sua conversa de felicidade! esbravejou Pedro.
-- Vocês se enganaram. Todos sempre se enganam, quando acham que para ser feliz é preciso alguma condição como dinheiro, inteligência, mocidade, amor ou glória...
-- Pelo amor de Deus! Filosofia barata não! Já estou farto de conselhos! falou Antônio.
Você prometeu felicidade, mas hoje, olhe para nós : somos os homens mais infelizes do mundo!
-- Vocês quiseram ser felizes. Fizeram seus pedidos e foram atendidos.
Mas esqueceram que a FELICIDADE NÃO PODE SER POSSUÍDA...
TEM QUE SER CONQUISTADA, ASSIM COMO O AMOR E A LIBERDADE.
Cada pessoa sobre a Terra é um ser único e imprevisível. Não existem fórmulas ou soluções que sirvam para todos.
Cada um precisa escolher o seu próprio caminho e o seu jeito de caminhar!
Vocês terão uma nova oportunidade...
-- E como será essa nova oportunidade ? perguntou Pedro.
Mas não ouviram resposta. De novo o rastro prateado confundiu-se com o brilho das estrelas.
-- Já é noite! surpreendeu-se Silas. Mas como ? Será que cochilamos os quatro ao mesmo tempo ?
Eram novamente jovens, ainda cansados pela caminhada, a última que faziam como internos do colégio.
-- Engraçado... aconteceu alguma coisa que não consigo me lembrar...disse Antônio.
Os quatro levantaram-se e já iam pôr-se a caminho, quando Antônio percebeu um pedaço de papel esverdeado pregado na jaqueira.
-- Um bilhete! E é para nós! verificou Silas. Ninguém sabia quem tinha deixado aquilo.
Estava escrito...
Ninguém precisa de riqueza, poder, fama, mocidade, inteligência, ou qualquer outra coisa para ser feliz.
A felicidade não pode ser comprada.
Ela é fruto de nosso compromisso com a paz, a justiça, a alegria, o equilíbrio entre os seres do planeta, pois não é só a nossa felicidade que importa, mas a dos que virão depois de nós e de nossos filhos.
Ser feliz é isso : aproveitar intensamente este presente cotidiano A
VIDA - vivê-la plenamente e permitir que os outros também façam o mesmo.
Afinal, vivemos um dia de cada vez e quem deixa seu tempo presente preocupado com o que ainda não aconteceu ou angustiado pelo que já passou, perde a oportunidade de ser feliz AQUI E AGORA e, um dia, sem que se saiba quando, será tarde para voltar atrás.
Colaboração: Renato Antunes Oliveira

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