quinta-feira, 20 de agosto de 2009

Dalai Lama


Certa vez, Atisha foi questionado por seus discípulos: Qual é o ensinamento mais elevado do caminho? Atisha respondeu:
A mais alta habilidade é a realização do estado sem ego.
A mais elevada nobreza está em subjugar sua própria mente.
A mais elevada excelência está em ter uma mente que procure ajudar os outros.
O mais elevado preceito é a contínua vigilância e plena atenção serena.
O mais elevado remédio está em compreender a ausência de realidade de todas as coisas.
A mais elevada atividade está em não se conformar com preocupações mundanas.
A mais elevada realização é a diminuição e transmutação das paixões.
A mais elevada generosidade se encontra no desapego.
A mais elevada disciplina é uma mente pacífica.
A mais elevada paciência é a humildade.
A mais elevada persistência é abandonar o apego a todo fazer.
A mais elevada meditação é uma mente sem pretensões ou inclinações.
A mais elevada sabedoria é não se agarrar a algo assim que aparecer.
Ao deixar a província ocidental de Nari, Atisha deu o seguinte aconselhamento aos seus discípulos reunidos:
Amigos, até que tenham obtido iluminação, o professor espiritual é necessário; logo, apóiem-se no sagrado professor espiritual. Até que tenham realizado completamente a natureza da vacuidade, vocês devem ouvir o ensinamento; logo, ouçam atentamente ao preceito do professor. Meramente saber o Dharma não é suficiente para se tornarem iluminados; vocês devem praticar constantemente. Vão para longe de qualquer lugar que seja danoso à prática; permaneçam sempre num local que seja condutor da virtude. O clamor é danoso até que obtenham uma mente firme; logo, fiquem num local isolado. Abandonem os amigos que fortalecem os grilhões das suas paixões; apóiem-se nos amigos que façam aumentar a virtude. Mantenham isso em mente. Nunca haverá um fim nas coisas a fazer, portanto, limitem suas atividades. Dediquem sua virtude dia e noite e estejam sempre serenamente alertas.
Uma vez que tenham obtido o preceito do professor, vocês deveriam sempre meditar no ensinamento e agir em harmonia com a fala do professor. Quando fizerem isso com grande humildade, os efeitos se manifestarão sem atraso. Se agirem de acordo com o Dharma a partir das profundezas do seu coração, tanto a comida quanto os itens necessários virão naturalmente.
Amigos, não há satisfação nas coisas que vocês desejam. É como beber água do mar para satisfazer a sede. Logo, estejam contentes. Aniquilem todas as formas de pretensão e ambição, orgulho e conceito; subjuguem-se e sejam pacíficos. Abandonem tudo que alguns chamam de "virtude", mas que na verdade são um obstáculo à prática do Dharma. Como se fossem pedras num estreito caminho escorregadio, vocês devem limpar todas as idéias de ganho e respeito, pois elas são a armadilha do demônio. Como ranho no nariz, assoem todos os pensamentos de fama e exaltação, pois eles servem apenas para iludir e enganar.
Já que a felicidade, o prazer e os amigos que vocês têm acumulado duram de apenas um momento, virem as costas para eles. A vida futura não é mais longa do que esta vida, portanto cuidadosamente zelem seu tesouro de virtude para se proverem no futuro. Vocês deixarão tudo para trás quando morrerem; não se apeguem a nada.
Deixem para trás o ato de desanimar e depreciar os outros e gerem uma mente compassiva por aqueles que são seus inferiores. Não tenham apego profundo por seus amigos e não discriminem seus inimigos. Sem serem invejosos ou cobiçosos das boas qualidades dos demais, com humildade desenvolvam estas qualidades vocês mesmos. Não se incomodem examinando as falhas dos demais, mas examinem as suas próprias. Purguem-se delas como sangue ruim. Tampouco devem se concentrar nas suas próprias virtudes; ao invés, respeitem-nas como um servo faria. Estendam amor e gentileza a todos os seres como se eles fossem seus próprios filhos.
Sempre tenham um rosto sorridente e uma mente amável. Falem honestamente e sem raiva. Se saírem dizendo muitas coisas sem sentido, vocês cometerão erros; assim, falem com moderação. Se fizerem muitas coisas sem sentido, seu trabalho virtuoso cessará; abandone as ações que não sejam espirituais. É inútil esforçar-se com trabalho inessencial. Já que qualquer coisa que aconteça com vocês vem como resultado de seu karma passado, os resultados nunca coincidirão com seus desejos presentes. Logo, fiquem calmos.
Ó, é bem melhor morrer do que causar a vergonha de uma pessoa santa; logo, vocês devem sempre ser francos e sem falsidade. Toda a miséria e felicidade dessa vida surge do karma dessa e de vidas passadas; não culpem os outros por suas próprias circunstâncias.
Até que vocês se subjuguem, vocês não podem subjugar outros; logo, primeiro subjuguem a si mesmos. Vocês não têm capacidade para amadurecer os demais sem clarividência; façam um grande esforço para atingir a clarividência.
Vocês certamente morrerão, deixando para trás qualquer riqueza que tenham acumulado; logo, tenham cuidado para não reunirem aviltamento devido à fortuna. Já que prazeres que distraem não têm substância, adornem-se com a virtude da doação. Sempre mantenham disciplina ética pura, pois ela é bonita nessa vida e assegura felicidade em vidas futuras. Nessa era da Kaliyuga, na qual o ódio é desenfreado, assumam a armadura da paciência, que anula a raiva. Permanecemos no mundo pelo poder da preguiça e indolência; assim, devemos atear fogo como que num incêndio ao nos esforçarmos pelo atingimento. Momento após momento, suas vidas são desperdiçadas quando atraídas pela isca, pelo engodo das atividades mundanas; é tempo de meditar. Por estarem sob a influência de visões errôneas, vocês não percebem a natureza da vacuidade. Zelosamente busquem o significado da realidade!
Amigos, o samsara é um vasto pântano no qual não há felicidade verdadeira; corram para o local de liberação. Meditem de acordo ao preceito do professor e sequem o rio da miséria samsárica. Tenham sempre isso em mente. Ouçam bem esse conselho, que não é feito de meras palavras, mas que vem direto de meu coração. Se seguirem esses preceitos, não farão feliz apenas a mim, mas a vocês mesmos e a todos os outros da mesma forma. Embora eu seja um ignorante, eu lhes instigo a lembrarem dessas palavras.
Numa outra vez, Atisha afirmou:
Essa era negra não é o tempo para demonstrar sua habilidade; é o tempo de perseverar através do apuro. Não é o tempo de ter uma posição elevada, mas tempo de ser humilde. Não é tempo de de se apoiar em muitos atendentes, mas tempo de se apoiar na solitude. Tampouco é tempo de subjugar discípulos; é tempo de subjugar-se. Não é tempo de meramente ouvir palavras, mas tempo de contemplar seu significado. Não é tempo de visitar aqui ou acolá; é tempo de permanecer só.
Quando o venerável Atisha estava em Yerpadrak, perto de Lhasa, ele deu o seguinte preceito:
Nobre filhos, reflitam profundamente nessas palavras. Na era negra, as vidas são curtas e há muito a ser compreendido. A duração da vida é incerta; vocês não sabem por quanto tempo viverão. Assim, vocês devem fazer grandes esforços agora para preencher seus desejos corretos.
Não se proclamem monges se vocês obtêm as necessidades da vida à maneira de um leigo. Embora vivam num monastério e tenham abandonado as atividades mundanas, se vocês se agitam pelo que abandonaram, não têm direito de proclamar, "Sou um monge vivendo num monastério". Se suas mentes ainda persistem em desejos por coisas agradáveis e ainda produzem pensamentos danosos, não proclame, "Sou um monge vivendo num monastério". Se ainda se rodeiam com pessoas mundanas e desperdiçam tempo em conversas mundanas e sem sentido com aqueles com quem vivem, ainda que estejam vivendo num monastério, não proclamem, "Sou um monge vivendo num monastério". Se são impacientes e saem se sentindo menosprezados, se não conseguem ser ao menos um bocadinho de auxílio aos outros, não proclamem, "Sou um monge bodhisattva".
Se falam assim com pessoas mundanas, vocês são grandes mentirosos. Vocês podem se safar ao dizer tais coisas. Contudo, não podem enganar aqueles que têm a vasta e ilimitada visão da clarividência, nem podem enganar aqueles que têm o olho dhármico da grande onisciência. Nem podem enganar a si mesmos, pois os efeitos do karma os seguem.
Para permanecerem num monastério, é necessário abandonar os modos mundanos e o apego aos amigos e parentes. Ao renunciarem a suas companhias, estão se livrando de todas as causas conexas de apego e nostalgia. Daí em diante, vocês devem procurar a preciosa bodhichitta. Nem mesmo por um instante devem permitir que surja sua obsessão passada com assuntos mundanos. Primeiramente, vocês não praticaram adequadamente o Dharma e, sob a influência de hábitos passados que minaram suas forças, vocês continuamente produziram os conceitos de uma pessoa mundana. Como tais conceitos são predominantes, a menos que façam uso de fortes antídotos a eles, é inútil permanecer num monastério. Vocês seriam como os pássaros e animais selvagens que lá vivem.
Em resumo, ficar num monastério não será de auxílio se vocês não reverterem a obsessão por coisas afáveis e não renunciarem às atividades dessa vida. Pois se não cortarem essas inclinações, ao pensarem que podem trabalhar pelos objetivos tanto dessa como de vidas futuras, vocês não realizarão qualquer coisa, a não ser práticas religiosas incidentais. Esse tipo de prática não é qualquer coisa a não ser prática hipócrita e pretensiosa feita por ganho egoísta.
Conseguinte, vocês devem sempre procurar amigos espirituais e se afastar de má companhia. Não se tornem radicados em um local nem acumulem muitas coisas. O que quer que façam, façam-no em harmonia com o Dharma. Deixem que qualquer coisa que façam seja um remédio para os grilhões das paixões. Essa é a verdadeira prática religiosa; façam grande esforço para isso. Conforme seu saber aumentar, não sejam possuídos pelo demônio do orgulho.
Ao permanecerem num local isolado, subjuguem-se. Tenham poucos desejos e estejam contentes. Não se deleitem em seu próprio conhecimento, nem procurem as falhas dos outros. Não sejam covardes ou ansiosos. Sejam de boa vontade e sem preconceitos. Concentrem-se no Dharma ao se distraírem pelas coisas erradas.
Sejam humildes e, se forem derrotados, aceitem isso graciosamente. Abandonem a ostentação; renunciem ao desejo. Sempre gerem uma mente compassiva. O que quer façam, façam-no moderadamente. Sejam facilmente contentáveis e facilmente sustentáveis. Corram como um animal selvagem do que quer que possa aprisioná-los.
Se não renunciarem à existência mundana, não digam que vocês são sagrados. Se não renunciarem à terra e à agricultura, não digam que adentraram a Sangha. Se não renunciarem ao desejo, não digam que são monges. Se não tiverem amor e compaixão, não digam que são bodhisattvas. Se não renunciarem ao fazer, não digam que são grandes meditadores. Não estimem seus desejos.
Em resumo, quando estiverem num monastério, engajem-se em poucas atividades e apenas meditem no Dharma. Não tenham causa para arrependimentos no momento da morte.

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